sábado, maio 8

A dois quarteirões de distância

Sai de casa. Toma banho. Volta para casa.
Espera lá, há aqui qualquer coisa errada. Não devia ser: Toma banho, sai de casa?
Não! De facto, hoje a ordem é esta.
Em pleno século XXI, numa conceituada capital europeia de um país desenvolvido para tomar banho tenho que sair de casa. É a prova de que água e electricidade são uma mistura explosiva, dois elementos imiscíveis em qualquer situação. E quando por alguma razão macabra o ser humano, numa tentativa de reconciliação desesperada, os tenta juntar instala-se o caos familiar.
Abre a torneira da bolinha encarnada. Fecha! Abre a torneira da bolinha azul. Fecha! E não há diferença na temperatura do líquido mais precioso do mundo...
Há quase uma semana o termoacumulador cá em casa resolveu entrar em greve, em forma de protesto por excesso de uso, desconfio. Sem pré-aviso ou data marcada, nem tão pouco com uma data para por fim a este tormento.
Perante este triste cenário restam duas hipóteses: ou banho de água fria (embora gelada seja o termo mais apropriado), ou banho fora de casa.
A mãe (integrante da parte corajosa do agregado familiar) opta pela primeira. Num regresso aos primórdios da civilização enfrenta a banheira e toma um banho que é, no mínimo refrescante.
O pai e a filha (a outra parte do agregado familiar) são mais requintados. Não abandonam o conforto conquistado pelo homem ao longo de mais de 2000 anos de existência. Deslocam-se, num passeio matinal forçado com o necessaire a tira colo, até casa da avó, num esforço para alcançar a tão desejada água purificadora a uma temperatura amena e reconfortante.
Anseio pelo dia em que tudo volte ao normal. Em que para tomar banho tenha apenas que sair do quarto e entrar na porta ao lado (como aliás estou tão habituada a fazer).
Por enquanto o banho continua a dois quarteirões de distância!

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